"Oi, eu sou o Fá. Há alguns dias, meus amigos e eu visitamos um museu em Embu das Artes. Lá, próxímo a um túmulo, senti uma sensação estranha, como seu alguma força houvesse sido libertada. Desde então tudo mudou, e toda vez em que eu durmo sou teletransportado para o mundo das artes dos sonhos, aqui mesmo em Embu, na era medieval. Descobri que faço parte de uma linhagem de índios que protegem esta região da espreita do mal há séculos. Mas eu? Neto de negros e brancos, como poderia? Ao que parece, não sou o único. Agora preciso reunir todos esses descendentes para defender os selos das Artes que impedem as terras místicas de serem tomadas pelas forças do mal. E lá vamos nós ").
"Desde quando você tem ido para o mundo dos sonhos?" perguntou Fá para Zi.
"Segunda à noite, eu acho. Eu falei com o Chu e ele disse que aconteceu a mesma coisa."
"O quê? Com o Chu?!! Aquele filho da mãe! Eu falei com ele sobre o que estava acontecendo e ele disse que eu era louco."
"Não fica bravo Fá, eu e ele combinamos que não contariamos a nínguém. Afinal, quem iria acreditar. E depois, falei com ele ontem. Talvez tenha sido antes de você."
Fafito fica pensativo. Então pergunta:
"E o que aconteceu lá?"
"Não sei bem, muita coisa estranha. Encontrei uma amiga sua lá. Ela disse que te conhece, mas que você está do outro lado."
"Uma amiga minha? Quem poderia ser? E de que outro lado está falando?"
Zi ri por um instante, se ajeita no sofá e diz:
"Eu vou te explicar. Fecha os olhos e respira fundo. Vamos dormir."
"Ir para o mundo dos sonhos? Agora?... Não sei se é uma boa idéia." retruca Fá, olhando para os lados. Mas então olha para Zi e ela está imóvel. "Zi?..."
Escuta ela roncar. Faz cara de tacho.
"Miserável... já dormiu."
Fá encosta-se no sofá, segura a mão de Zi e fecha os olhos. Também adormece.
"Ei, olha ele ali!!"
"Hm?"
Fafito se levanta, estava antes encostado numa pedra. Era Embu das Artes, em 1920.
Ao redor do centro histórico, já se instalavam diversas comunidades, e as ruas de terra daqui a algumas décadas receberia um grande número de imigrantes japôneses, fugitivos da Segunda Grande Guerra.
Mas naquele momento, próximo a uma fonte, numa área de mata atlântica, Fafito podia avistar Zi e sua amiga Lilian, de pê a poucos metros. Os passáros cantavam e a luz do sol ofucava sua visão.
"Oi... Lilian, que prazer em vê-la. Nossa, que roupa é essa?"
A garota flerta o olhar, como cara de dúvida. Zi então fala:
"Lilian? Não é Porâsý?"
"Lilian é o meu nome na era de vocês. Prazer Fagner, que bom que está aqui."
Fafito permanece sem entender nada. Eles caminha pra as margens de um riacho e se sentam para conversar.
"Fá, a Porâsý me encontrou perdida e salvou minha vida aqui quando eu vim pela primeira vez. Ela só está aqui durante o dia, por isso eu tenho passado as madrugadas em claro. É vir perigoso durante a noite. Existem monstros e pessoas más que, eu não sei por que, querem me matar."
"Durante o dia? Entendo... é por isso que nunca nos encontramos por aqui. Po-porã... eu posso te chamar de Lilian não é?" diz Fá à garota que sorri. Ele continua. "Por que essas pessoas ou criaturas querem matar a Laninha?"
"Por que ela é a reencarnação de Kerana. Na mitologia guarani, o Grande Criador Nhanderu, deus do Sol, com a ajuda da deusa da lua, Aracy, criou os céus, a terra, as águas e todas as criaturas vivas no mundo, a partir das terras do Paraguai, Sul da Bolívia, Norte da Argentina e o Sudoeste do Brasil.
As águas, rios, lagos e neblina, criou Yara, uma entidade mística para protegê-las. Para as matas e todas as criaturas vivas, criou Caaporã. E para os céus, Tupã. Tupã também é o nome usado para se referir a Nhanderu pelos índios brasileiros.
Os homems foram elaborados durante um ritual. Moldados de argila, Tupã soprou-lhes a vida, como se fossem flautas e Tupã um grande músico. Assim nasceram Rupave e Sypave, tidos como o pai de todos os povos e mãe de todos os povos sucessivamente. Eles tiveram três filhos e diversas filhas.
O primeiro dos filhos foi Tumé Arandú, considerado o mais sábio dos homens e o grande profeta do povo Guarani.
O segundo filho foi Marangatu, um líder generoso e benevolente do seu povo, e pai de Kerana, a mãe dos sete monstros legendários do mito Guarani.
Seu terceiro filho foi Japeusá, que foi, desde o nascimento, considerado um mentiroso, ladrão e trapaceiro, sempre fazendo tudo ao contrário para confundir as pessoas e tirar vantagem delas. Ele eventualmente cometeu suicídio, afogando-se, mas foi ressuscitado como um caranguejo, e desde então todos os caranguejos foram amaldiçoados para andar para trás como Japeusá."
"Entendi. Eu já ouvi dizer que diversas comunidades tem suas lendas e mitos sobre a criação do mundo e dos seres humanos. Esta dos Guaranis é bem interessante. Mas por que eu, a Zi, o Chu viemos para este mundo? Existe alguma relação com a lenda da criação?"
"Kerana é filha de Marangatu. Segundo a lenda, Tau, a personificação do mal, sequestra Kerana e tem com ela sete filhos. A deusa Aracy os amaldiçoa, e seus filhos nascem como bestas mitológicas, criaturas horríveis que espalham o mal pelo mundo."
"As pessoas que tentam me matar Fá, não estão a seviço do mal. Alguns eram bandeirantes, aqueles que desbravavam os territórios desconhecidos na época do descobrimento. Outros, são criaturas evocadas pelos xamãs de tribos indígenas que acreditam que, a minha morte, é o único jeito de evitar que essas criaturas voltem a vida nos tempos de hoje."
"Voltarem a vida por que? Elas foram mortas?"
"Naquele tempo, as lendas não eram escritas, eram faladas de boca em boca, e muita coisa permanece um mistério. Entendo que os selos lacraram o mal, restringindo suas ações a raras aparições em lugares distintos." Explica Lilian a Fafito.
"Nossa!! Que história. Por que o velho padre não me falou nada a respeito?"
"Por que ele não quer que você saiba. Na verdade, não quer que ninguém saiba. A sua religião esconde muita coisa, para não causar uma pandemia de pânico no mundo. Os casos de possessões demoníacas tem aumentado cada vez mais, as destruições do meio ambiente, catástrofes naturais, são todos prelurdios do que está por vir."
"O fim do mundo? E a igreja sabe de tudo isso? Será?" Perguntou Fafito.
"Eu não sei Fafito, mas já ouvi o pastor falando em Mt 24. O princípio das dores." respondeu-lhe Zi, e Lilian continuou:
"Pois sim, o fim do mundo estará próximo, e ele começa aqui. Mas não virá sem guerra. E Tau irá querer levar consigo o máximo de almas que conseguir, e tirar as vidas daqueles que foram escolhidos, pelo o meu ou o seu Deus. Na verdade só existe um. Você, Zi e seus amigos são descendentes da origem legítima, dos primeiros homens e mulheres. Sua reencarnação na terra mostra que não estão aqui a toa. Os selos estão enfraquecidos. Precisam protegê-los."
Fá e Zi olharam-se. Um não sabia se o outro acreditava em tudo aquilo e por isso tinha medo de dizer que acreditava. E como não crêr? Tinham adormecido no sofá e estavam às margens de um rio em tão pouco tempo. Lilian despediu-vos.
"Agora precisam voltar. Fá, localize os portais. Descubra onde está cada um deles. Você precisará reunir todos os descentes e resignar um para cada portal e guardá-lo com a própria vida. Com a morte dos grandes mestres, os portais são nossa única salvação."
"Reunir os descendentes? Como assim? Como saberei quem eles são?"
"Você saberá. (risos) Agora vá."
Zi se levanta e o chama até a beira do riacho. Faz uma concha com as mãos e enche-a de água. Olha pra ele e fala:
"Vem Fá. Você precisa beber a água para voltar."
"Beber a água?" Pensa ele, se abaixando junto as águas. Ele então repete o gesto dela.
Ao abrir os olhos estava na sala de Laninha. Ela o olha e sorri:
"Viu que legal? Somos descendentes legítimos."
"Descendentes legítimos? Se todos nasceram do mesmo pai e da mesma mãe, logo todos não seriam descendentes?"
"Ela quis dizer, descendentes que reencarnaram. E eu sou neta do primeiro homem."
"Eh... quem será que eu sou? Sempre tive um instinto de liderança. Devo ser Marangatu, seu pai."
"Papai!!" Diz ela e os dois riem muito. Fá pergunta intrigado.
"Como sabe que a água teletransporta dessa forma suave? Costumo sair quebrando tudo quando meu espírito volta ao corpo."
"Porãsý me ensinou. Quando estamos no outro mundo, assim que alguém ou alguma coisa nos acorda aqui na terra, voltamos imediatamente. Mas se quisermos voltar a qualquer hora, basta ingerir terra ou água. Terra em último caso, pois deixa a alma pesada e acontece o que você viu lá como a minha cama."
"Sei bem... agora eu durmo no chão." Diz Fafito. Ele suspira e propõe em seguida:
"Localizar os portais... encontrar os descendentes. Ok. Vamos nessa!!"
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