"Oi, eu sou o Fá, e a cidade onde eu moro, Embu das Artes, foi fundada apartir de uma aldeia, ha 457 anos atrás. Naquele tempo, um índio salvou a vida de um padre, mas foi morto em seguida por uma serpente, M´boi, na língua dos índios. Entretanto, na verdade todos estes personagens apenas representavam uma batalha espiritual que tornou essas terras místicas objeto de cobiça entre o bem e o mal. Eu o que tenho haver com isso? Quase nada, só sou a reencarnação desse índio e agora tenho que dividir o meu dia entre trabalhar, estudar e salvar o mundo do mal. Moleza. (risos) Ai, ai... Bem vindos ao meu mundo. Loucura? Vamos nessa!"
Fafito abriu os olhos...
Foi lançado para cima, bateu a cara e o peito no teto e caiu em cima do colchão!!
(PAF!! PUF!!)
"Aaaahhhhhhh!!!' puxando o ar, como se antes estivesse sem respirar.
O lustre balançava de um lado para o outro.
O celular despertava, a televisão estava ligada.
Tinha voltado para o seu mundo.
Pôs as mãos no rosto... chorava.
"O que é isso?... O que está acontecendo? Céus, isso tem que parar..."
Soluçava, fungando e esfregando o nariz.
Então rangeu os dentes, rapidamente trocou de roupa e saiu, sem mochila nem nada.
Tomou o ônibus para o trabalho.
Sentou-se à janela, fechou os olhos e ficou sussurando para si mesmo:
"Dorme, dorme, dorme, dorme..." mas pensava: "Senhor, a garota... Que hora de acordar.. eu a deixei sozinha..." Quando abriu os olhos, já havia amanhecido.
Estava no mesmo lugar daquela batalha.
Tudo estava destruído e algumas árvores e arbustros pegavam fogo.
"Onde está?!! Onde está?!!"
"Por que você voltou?"
Fafito virou-se.
"Padre!!" sorriu. "Padre, o que aconteceu? Cade a garota?"
Abaruna caminhou em direção a igreja.
"EI!! Você não me ouviu?!! Onde estão os índios?!!"
O padre olhou para trás. Fafito olhava pra ele... mas seu sorriso foi ficando sem graça.
"ESTÃO TODOS MORTOS!!"
Fá levou um choque. Como se o mundo todo sumisse e só estivesse eles ali.
Trêmulo, falou:
"Mortos... Todos mortos?"
"Eu lhe disse desde o princípio garoto. Isto já aconteceu, estamos no passado. E não havia nada que você pudesse fazer por aquelas pessoas."
Ele então abaixou a cabeça. Uma lágrima escorria de seu olho.
"Porquê?..."
MAS SUBITAMENTE
As criaturas surgiram por suas costas para lhe atacar novamente.
Fafito as percebeu, mas permaneceu imóvel. Talvez pelo choque psicológico no qual se encontrava, ou por que estava cansado de tudo aquilo, e não se importava de morrer para acabar com aquele sofrimento.
O padre olhou para ele, olhou para ele denovo e, notando que ele não iria se defender, virou-se, levantando a mão e, assim que os monstros iam dar o bote, gritou:
"Libera nos a malo!!"
E as criaturas se dissparam.
Apenas uma fumaça negra atingiu Fá, mas logo se dispersou, e nada delas restou.
Fafito levou o olhar, antes ao chão, para os olhos do padre.
Então voltou a si. E mumurrou...
"Você podia ter feito isso?..." O padre permaneceu em silêncio, apenas abaixou a mão. "Você disse que eu não poderia fazer nada... mas a verdade você poderia?" E logo gritando: "VOCÊ PODERIA TER SALVO AQUELAS PESSOA A QUALQUER MOMENTO!!!!"
Abaruma desviou o olhar. Fafito em desepero, sulplicou com voz de choro:
"Por que você não fez?...." (soluçando) "EU PERGUNTEI PORQUE!!!!"
O padre respirou fundo, seguia em direção a Fá. Abaixou-se e pegou um punhado de terra. Então levantou e falou:
"A guerra que estamos enfrentando é muito maior que esta batalha..."
"Por que você não fez..." (choramingando)
"As pessoas Fafito, morrem... tá? Elas morrem de um jeito ou de outro, elas morrem. Mas às vezes elas permanecem aqui, como eu e você, vagando por esta terra por que elas não terminaram o que tinha que ser feito e não podem descansar em paz."
Ele segurou seu queixo com uma mão e pôs a terra em sua boca com a outra, dizendo:
"Nós precisamos terminar isso aqui, se não... isso nunca vai acabar. Mas eu preciso Fagner que você me ouça. Que você trabalhe comigo, que você confie em mim!!"
Fez um sinal da cruz em sua testa. Fafito, em lágrimas, com o olhar a se perder no horizonte, imóvel e com a boca cheia de terra, olhou para o padre.
"Agora, você precisa voltar. Trabalhar, lembra?" (sorriu) "Não deve estar aqui durante o dia. Nós vamos conseguir Fá, vamos sim, nós vamos vencer. E não haverá mais sangue ou guerra, nem mortes... Mas você precisa confiar em mim, tudo bem?"... "Tudo bem?!"
Fafito move um pouco a cabeça .
"Bom garoto. (risos) Agora vá, e tenha um bom dia"
E bate com o calcanhar da mão em sua testa.
A alma de Fá voltou para seu corpo, mas como o ônibus estava em movimento, acabou parando inesperadamente, e todos os passageiros foram lançados para frente, como se o veículo tivesse batido.
Houve gritaria, gente machucada, pessoas discutindo, sem entender nada.
Fá apenas abaixou a cabeça entre as pernas e cuspiu toda a lama.
As pessoas pensaram que ele estava vomitando, ou cuspindo sangue por causa da batida.
Todos tiveram que descer do ônibus para serem atendidos.
Mas Fafito parecia não estar ali. Apenas um corpo vagando, vazio... ou cheio de dúvidas.
Logo voltou a si e percebeu o que tinha feito.
"As pessoas se machucaram por minha culpa... Que droga está acontecendo? Por que tinha que ser comigo? Eu tô cansado disso... eu não vou trabalhar..." pensou ele. Atravessou a rua e pegou outro ônibus, sentido Embu das Artes.
No caminho, olhava pela janela, mas não enchergava nada. Nada além das cenas daquela noite. Dentro do lago, os monstros, as lutas, as pessoas que haviam morrido.
Nunca havia sentido tando medo, tanta raiva, tanta tristeza, num só momento. Sentia-se sozinho. Diferentemente do outro ônibus que estava, quando o mesmo se encontrava lotado por que várias pessoas estavam indo trabalhar, este de agora estava completamente vazio, por que quase ninguém voltava aquele horário.
Os minutos passavam e ele estava exausto mas não sentia vontade de dormir. De morrer, talvez.
Foi quando o telefone tocou:
"Alô? Fagner? Você já está chegando aqui no trabalho?"
"...Eu não vou trabalhar hoje..." dizia ele, apático e pausadamente.
"Não, aconteceu alguma coisa?"
"eu... tô... doente..."
"E o que você tem?"
"... dor..."
"Ah tá, entendi. Então procura ajuda."
"pode deixar... obrigado."
"Tá bom, melhoras tá. Beijo."
Fá somente balançou a cabeça. Estava aéreo. Desligou o celular.
Quando o ônibus se aproximava de casa, ele desceu um ponto antes. Ia visitar uma amiga.
A campainha tocou.
"Fá?"
"Oi." respondeu ele, sem graça.
"Tá tudo bem?"
"Han... tá, é... eu só vim falar um oi."
"Tá zuando né Fá?... São sete da manhã... "
Fá abaixa a cabeça, fica pensativo.
"Que cara é essa? O que aconteceu? Você não foi trabalhar hoje?"
"Eu... eu preciso de ajuda."
Zi respira fundo e pede para ele entrar.
Após servir um café ela então pergunta mais uma vez o que aconteceu. Não era preciso saber muito a respeito de Fafito para notar que ele não estava bem. Mas zi, mais do que ninguém podia perceber. Ela notaria isso a quilômetros de distância.
Fá então contou toda a história, desde o domingo no museu, até aquela terça feira de manhã, quando ele comeu barro pela última vez.
"Então é isso eu, eu to com medo de dormir. Eu não quero voltar naquele mundo infeliz, não aguento mais, eu quero minha vidinha de sempre, levantar cedo, ir para o trabalho, ir pra faculdade, sabe? Uma vida normal... só isso..."
Zi permanece olhando seriamente para Fá.
"Você não tá acreditando né? Tá bom, pode falar que eu sou louco, vai fala!"
"Louco você é, com certeza..."
Fafito suspira, mas Zi pede que ele levante e a acompanhe.
Eles chegam a porta do quarto dela. Ela abre a porta e ele se espanta!!
A cama dela estava toda destruída e o chão repleto de rachaduras.
"... mas não é o único." Termina ela com um sorriso no rosto.
Eles se entreolham e riem muito.
"Mas como?"
"Vamo voltar lá pra sala, agora é sua vez de escutar."
CONTINUA...

Nenhum comentário:
Postar um comentário