Fafito ia caindo lento como uma pena no ar, rumo ao fundo do lago no parque.
Tocando o chão, ele abaixou a cabeça para abrir o baú. Mas sentiu a presença de mais alguém... Quando olhou para frente, um visão.
TERRÍVEL, FORTE, FATAL!!!!
Fá começou a cair para trás. Seus olhos não tinham expressão. Ele havia entrado em estado de choque.
Começou a colvulsionar por alguns instantes... até que seu corpo parou de se mexer...
de respirar... de compreender...
Escutava bem ao longe os sons de aflição, os gritos, passou a ver a silhueta das mãos se aproximando dele. Ele fechou os olhos e perdeu a consciência.
Os espectros seguiam em sua direção, gemendo e gritando seu nome. Andavam como mortos-vivos, com os braços esticados, tentando alcançá-lo. E nada poderia detê-los.
Foi então que ela apareceu.
Nadou velozmente para junto do corpo de Fá.
Segurou-lhe a cabeça. Estava triste por vê-lo assim.
Mas as criaturas continuavam vindo em sua direção. Então, enfurecida, ela simplesmente olhou para eles. Todos desapareceram.
Voltou a olhar para o garoto e seu coração estava partido em tristeza e compaixão.
Na superfície, o padre aguardava, sentado na canoa, tomando seu wiskey.
"Agora a pouco a água estava cheia de bolhas... deviam ser o ar solto por Fafito, ou da sua movimentação." Pensou ele, e continuou: "Mas já faz alguns minutos que tudo está calmo. Será que... Não, não é possível que ele morra num exercício bobo como esses. Desde que Marangatu voltou a reencarnar, sua estada na terra nunca foi tão importante. Isso por que Tau, a personificação do mal está próxima. Se ele falhar, estaremos perdidos e..."
Naquele instante, o corpo de Fá, trajando o gibão de ouro, com o escudo no braço esquerdo e a espada em sua cintura, boia até a superfície, bem próximo de onde ele mergulhou. O padre, surpreendido, rema até ele, segura-o pelo gibão e tenta acordá-lo:
"Fafito!! Fafito, acorde!!"
"Han?..." Ele abre os olhos e sorri. "E-eu não morri?"
"Claro que nã-ão!!" Diz Abaruna, fazendo força para puxá-lo para a canoa, que fica balançando por alguns instantes, O padre cai sentado na proa, e Fá fica atravessado, no meio do barco, respirando fundo.
Então ele empunha a espada e dirige-a contra Arabuna, encostanto a ponta em sua garganta, dizendo:
"Seu maldito!!! (ofegante)Você quase me matou!!!"
"Ei, ei, ei!! Vamos manter a calma por aqui. Tira essa espada daqui."
Fafito abaixa a espada. O padre faz sinal de negativo com a cabeça e destampa a pequena garrafa, inesperadamente, Fá toma-a da sua mão e começa a beber, ainda jogado no meio da embarcação. O padre pigarra e explica:
"Não sei por que está bravo... Deu tudo certo. Aliás, a culpa de tudo é sua." Fafito faz uma cara de "Cê tá louco" mas o padre continua: "É, é sua sim! Que porcaria de medos são esses seus? Uma menina com uma boneca? Eu quase morri de rir. Insetos? Para com isso, se uma garota te chamar para matar um besouro que entrou em casa você faz o que? Sai correndo gritando?"
"O besouro entrou sozinho. Ele que ache a saída."
"E a menininha?"
"Menininha? Você olhou direito? E depois dá um desconto... não é a menina, mas sim o que ela representa."
"A morte?... Desculpe mas eu não pude ver o que aconteceu lá em baixo. Apenas conseguia sentir o seu medo. Aliás, estou muito curioso. O que foi que você viu pra te fazer desmaiar?"
Fafito permanece em silêncio por alguns instantes. Então fala:
"Eu nao quero falar sobre isso."
"Hm... não quer falar? Tanto faz. Pra uma pessoa que tem medo de insetos e de uma menininha com uma boneca, não deve se precisar de muito para derruba-lá." Diz com arrogância Arabuna enquanto rema devolta a margem.
"Não tenho medo de insetos. Respeito eles. Cada um no seu canto, é claro. E eu não vou falar denovo que não gosto de fantasmas." Fá dá mais um gole no wiskey, faz uma careta, olha pro lados e joga a garrafa no lago. (GLUP!) Então resolve tirar algumas dúvidas. "Ouça velho, ontem à tarde eu adormeci no trabalho e vim parar aqui."
"O QUE DISSE?!!"
"Eh, eu... queria até te perguntar sobre isso por que, sinceramene não entendi."
"O mundo dos sonhos... durante o dia?" falou consigo mesmo Abaruna.
"Eu entendo que, toda vez que dormir, vou vir para o Embu? Por que na verdade, agora a noite eu consegui dormir e não ser teletranportado. E o mais estranho é que ontem não era como agora, era no meu tempo. Por exemplo, no lugar que está esse lago, no meu tempo é um parque. Mas agora é praticamente uma mata fechada. Eu não entendo."
"Você não deve vir aqui durante o dia!!"
"Mas hen?"
"Durante o dia eu não estou aqui, é perigoso, você pode se ferir."
"M-mas, pera aí. Explica esse negócio direito."
"Estamos no mundo dos sonhos. O mal existe tanto aqui como no seu mundo real, mas é só aqui que você terá como enfrentá-lo. Toda vez que dorme em sono profundo, automaticamente, sua alma retorna ao seu lugar de origem. Hoje, ela está presa a este lugar. Se as almas dos jesuítas ficaram aqui para proteger o tesouro deles. A sua ficou para proteger a cidade. Então você não pode dormir durante o dia."
"Cara, eu chego da faculdade umas onze e meia. Aí eu preciso tomar banho e comer alguma coisa. Quando eu consigo dormir, já tenho que levantar por que acordo quatro e vinte para trabalhar. Se eu não dormir no ônibus, no almoço, antes da aula, durante a aula, pra compensar, como eu vou viver? É contra a natureza, eu não aguento."
"Fá, a sua vida não pode ser mais importante do que a das pessoas que você vai salvar."
"Ah vah te catar, salvar vidas, combater o mal, até agora eu não fiz nada disso!!" "E nem sei se quero" "Quer saber o que eu acho? No passado havia cerca de 100 milhões de índios no Brasil. Aí vieram voceis, cheios de poder e conhecimento, e blá blá blá. Exterminaram as aldeias, fizeram escravos, seja de forma física, seja mental, por que empurraram-lhe suas crenças e tradições, ignorarm totalmente a cultura dos índios, acusando-os de inimigos da fé. Há relatos de que tinham autorização do governo para matar quem fosse inimigo da fé. Daí veio a inquisição, a alienação, a opressão. É isso que eu acho... Padre."
A canoa chegava a terra firme. As águas permaneciam calmas, refletindo a luz da lua.
De pé, o padre olhava com apreenssão para os olhos de Fá, com furor.
"É isso que você pensa?"
"É, é isso que eu penso sim!!!"
O padre balança a cabeça. E os dois são teletransportados.
De um silêncio repentino, ele sente o calor e fumaça vindos no seu rosto,
ouve os gritos, indaga:
"Mas o que é isso?"
CONTINUA...

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