"Nossa que droga!! Minha cama tá quebrada e eu estou atrasado para trabalhar!!!"
Fafito trabalha como balconista em uma farmácia, das 07:00 as 15:00 horas, mais tarde às 19:15, tem aulas na faculdade, onde estuda para se tornar farmacêutico. Como Embu das Artes é meio distante de tudo, ele não pode voltar para casa, pois não teria como chegar a tempo na aula. Por isso, depois do trabalho, ele aproveita o tempo intermediário para comer e estudar. Como certa frequência, acaba pegando no sono em qualquer lugar que esteja.
"Está dizendo que você dormiu e foi parar por volta de 1600, na aldeia que deu origem a cidade de Embu?" perguntou Chu, ao telefone.
"Não!!! O índio morreu em 1554. 1600 e pouco foi quando eu estava na Igreja do Rosário e o padre me contou tudo a respeito, você não está prestando atenção?!!"
"Calma Fah. (risos) Você deve ter se entrertido muito com o nosso passeio e sonhou com tudo isso."
"Ah é? Então tá, eu pesquisei aqui no net e descobri que tudo era verdade, as datas, os acontecimentos, tudo é real, como eu posso ter obtido estas informações em um sonho?"
"Sei lá, você leu em algum lugar e esqueceu. Ou então, já sei: Senilidade. Ha! Ha! Ha!"
"Senil, eu? E a lama na minha boca? E a cama quebrada? Olha Chu, eu liguei pra você por que pensei que de todos os amigos loucos que eu tenho, você era o único que iria acreditar em mim, mas quer saber, me deixa em paz!!!" Fafito desliga, bravo, o telefone.
Abaixa a cabeça na mesa do refeitório, fecha os olhos, e fica pensativo.
Então levanta o corpo e encosta as costas na cadeira, ainda com os olhos fechados. Sente uma leve tocar brisa no seu rosto e um burburinho distante. Esse som vai aumentando, até que Fá frisa o rosto e resolve abrir os olhos. Carros passando, pessoas andando, o vento batendo nas árvores e fazendo as folhas caírem.
"Centro do Embu... (pensando) Como eu vim parar aqui?"
"Eu não sei, mas levei um susto"
"O que?!" diz ele assustado olhando para o lado.
"Me desculpe, é que você pensa muito alto. Eu estava aqui sozinha e quando olhei por lado você estava aí. Ta querendo me matar?"
Fafito permaneceu olhando para a menina, surpreso, mas aos poucos foi abrindo um sorriso.
"Lilian... (Risos) Como isso é possível? Só pode ser um sonho."
Lilian era irmã de um amigo que trabalhava com Fá. Ele a conheceu num ano desses, mas não se falavam tanto. Ela era tão bonita que ele ficava completamente sem jeito perto da menina.
"O que está fazendo aqui?... E-Ei, to falando com você!"
"Han? Eh... Desculpa, (risos) Eu... Eu... Sei lá, vim tomar um ar." Na verdade estava pensando como foi parar ali. Mas se uma amiga sua estava ali também, significa que ele não tinha voltado no passado.
"Escolheu um bom lugar, gosto daqui também. Sabia que há tempos atrás este lugar era habitado por índios? (sorriso irônico) Mas veio a Companhia e impôs sua lei."
"Eh... eu não entendi."
"Os indígenas tinham sua própria cultura, seus costumes, sua religião. Mas os missionários acreditavam que tinham que converter as almas pagãs, e seguir a cultura européia. Tiraram os silvícolas de seu habitat, alienaram-os de suas tradições, encarceraram em casas e escolas onde eles adoecíam e morriam com extrema facilidade, devido a nunca ter tido contato com as doenças dos brancos, e os que se negavam a ser domesticados eram mortos."
Fafito continua olhando para Lilian, apenas ouvindo, pensando, julgando dentro de si todos aqueles acontecimentos. A garota com quem conversava trajava uma saia longa, colares e pulseiras de cascas secas de côco, comum na cidade, tinha os longos cabelos dourados e guardava por trás dos olhos verdes uma imensa sensação de paz e liberdade junto aos elementos da natureza.
"Bom, agora eu preciso ir. Toma cuidado, não fica destraído por aí, estão desaparecendo artistas aqui na região."
"Desaparecendo... artistas?"
"Éh, ha, ha... você é músico não?" diz Lilian sorrindo e ele retribui. Quando estava de saída, ela olha pra trás e pergunta: "Você não devia estar trabalhando agora?"
Ele, que estava sorrindo, fica sério e escuta um o refrão de Smells like teen spirit tocando no seu ouvido, cada vez mais alto... cada vez mais alto... cada vez...
DEREPENTE!!!
A alma volta para seu peito e ele, que estava sentado, é lançado violentamente para trás, quebrando a cadeira, dando uma cambalhota e se espatifando na parede da sala do refeitório.
"Ai... ai... (Ti-Bouf!!) Nossa, que viagem... literalmente. O celular tocando me acordou, foi isso que me trouxe de volta." E suspira: "Preciso treinar estas aterrisagens."
Depois da faculdade, Fafito voltou para casa. Era hora de dormir... e ele estava como medo, é claro. Colocou o colchão direto no chão, pois não ia consertar a cama aquela hora da noite, passavam das zero horas.
Deitou-se, receiosamente, virou para o lado e adormeceu...
Foi então que acordou, assustado, tenso, preoculpado, olhando para os lados procurando algo!!!
Mas estava no seu quarto. Pegou um relógio e olhou:
"Han... eu só dormir 15 minutos? Mas que porcaria."
Deitou-se e voltou a dormir
"Acorda guerreiro!!"
"Hm?"
"Como foi o seu dia? Na verdade não me interessa, POR QUE HOJE nós vamos iniciar o seu treinamento!! Ou tá pensando que vai ser fácil ser super-herói?" falou com entusiasmo.
"Ah não!! O Padre... a cama na igreja que mais parece uma senzala... Não pode ser? (Choramingando) Droga... eu voltei pro mundo dos sonhos."

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