terça-feira, 12 de julho de 2011

III - "rEeNCarNAÇãO - sEGUndA paRte"

"Em primeiro lugar, em 1600 e alguma coisa, isso aqui ainda não era um museu, mas uma igreja
em homenagem a Nossa Senhora do Rosário.
Nessas terras montanhosas, ficava a fazenda de Fernão Dias Pais e Catarina Camacho, sua mulher. Em 24 de janeiro de 1624, o casal doou a propriedade aos jesuítas, incluindo os muitos índios que aldeara em torno da sede.
Duas condições foram impostas por Catarina para efetivar a doação: o culto ao Santo Crucifixo e a festa de Nossa Senhora do Rosário, a quem a pequena capela da fazenda era dedicada. E foi aqui que o Padre Belchior de Pontes, figura fundamental na história da aldeia, instaurou essa construção."
"Tá mas e daí?"
"Calma!... E não interrompa" (tossindo) "Continuando, a igreja foi construida sobre o túmulo
de um índio, aquele mesmo que você viu ser morto pela serpente. Certa vez, ele salvou
Belchior da morte, e o mesmo viu como uma obrigação fazer-lhe esta homenagem."
"Peraí, mas se ele acabou de morrer, e a igreja foi construída sobre seu túmulo, como
pode a igreja já está erguida?"
"Hehe, é meio confuso a questão do tempo-espaço Fafito. Pra você ter idéia, eu não sou uma pessoa real."
O silêncio tomou a sala. Fafito questionou. "E o que é o senhor então?" e o Padre continuou.
"Sou um, digamos, um espírito? Mas já me chamaram de anjo muitas vezes. Os índios me chamam de Abaruna"
"Ta legal senhor Abaruna, ou sei lá o que... Isso aqui tá ficando cada vez pior.(disse Fá se levantando) Chega disso tudo, ai ai. (e já de pé) Não sei se o senhor reparou mas, eu acabei de ser triturado vivo.
Então, ou o senhor me fala o que eu tenho haver com  isso tudo, ou eu vou embora para minha cama, de onde eu nem sei como eu saí."
"Aí está!! Acabou de ser triturado... mas já está de pé! Não se perguntou como isso é possível?"
Fafito faz cara de dúvida.
"Serpente na lingua dos índios, tupi-guarani, significa M´Boi. Estes fatos originaram o povoado que bem mais tarde, passou a ser destrito, e finalmente municipio. Pela pronuncia, em-boi, en-bo, acabou virando Embu, o nome de toda essa terra em que você habita."
"Histórias, e mais histórias!! Eu não quero saber de nada!!! Eu já perguntei: E EU COM ISSO?"
"Você, Fá Sustenido, é a reencaranção daquele índio."
A frase foi chocante e de forte impacto psico-físico no rapaz.
Fagner ficou pensativo, e foi cambaleando até a cama, onde sentou novamente. Respirou fundo e disse sorrindo.
"Isso não é possível."
"Não?.. bom, e como é possível então você estar aqui?"
"E-eu... Isso é um sonho, só pode ser!!"
"Fafito, eu estou aqui a muito tempo, e já ajudei muitos outros da sua linhagem. Não vê? De todos, só você até hoje conseguiu perceber que, a ligação da dor que sentiu era a mesma do indío que foi assassinado."
(Risos)
"Ah vá, assassinato? A serpente é assassina?"
"Fá, não era só uma serpente... Era um Anhangá."
"O que?"
"Um demônio..."
Fá fica pensativo, então sorri e fala:
"Não diga demônio Padre... O Senhor está numa igreja."
Os dois se olham... e caem na risada.
Do lado de fora, o Padre caminha ao lado de Fá, que continua tentando entender.
"Então, digamo, e só digamos, que tudo isso seja verdade... O que eu faço agora?"
"Sua alma sempre retorna para protejer a aldeia."
"Proteger do que? Ah ja sei, dos Anhangás."
"Aprende rápido, hehe. Bom, você ficou um tempo sem aparecer por este mundo, e os modadores daqui descobriram um jeito de se proteger sozinhos."
"Mesmo? Como?"
"Atraves da Arte" "As telas, as esculturas, as canções, as danças, as crenças... são todos selos."
"Selos?"
"Eles lacram a cidade, e a protegem do Mal. Porém, apenas grandes mestres conseguem elabora-los. Mestre Assis, Mestre Sakai, Solano Trindade. Todos os grandes artistas que chegaram ao Embu apartir dos anos 20, 30, 50, não vieram aqui por acaso. Eles foram chamados. E através da sua arte, a cidade pode ser mantida em paz." "Mas nossos mestres partiram Fá, e os selos se enfraqueceram. Por isso a prefeitura criou os portais."
"Para, para, para!!! Agora ferrou tudo... A prefeitura? Mas como o prefeito, nos dias de hoje pode saber dessa história e..."
"Só sabe da história a quem interessa Fafito. Muitas pessoas são céticas."
"Ah, presente tá! Só pra avisar!"
(risos)
"Mas os portais por si só não vão dar conta. Essa terra é sagrada Fá, e é por isso que M´boi sempre esteve a espreita, tentando corrompe-la, toma-lá, possuí-lá. A você foi destinada a missão de dete-lo."
Mas derepente, vozes e lamentações começaram a ser ouvidas, vindas de baixo da ladeira.
"Essa não!! Está amanhecendo, os fúnebres espíritos dos jejuítas estão voltando para a
capela, nos precisamos sair daqui!!"
Fá permanece observando os estranhos seres que quase rastejavam-se, na procissão no final da ladeira.
"Correr pra que? Estão lá embaixo"
SUBITAMENTE!!
Os anciões apareceram na metade da ladeira, em seguida no topo dela!!!
Fafito quase caiu para trás de susto!!
"Porra!! Que isso?!!
"Venha Fá!! Nunca olhe nos olhos deles, corra sempre deles, as almas penadas os acompanham!!"
Eles corriam desesperados, como em camera lenta, quando os anciões surgiram a um passo deles!
"Droga não vai dar tempo"
Saltaram, o Padre no movimento tinha enchido a mão de terra e, quando no ar, enfiou a terra na boca de Fá, benzeu-lhe a testa com um crucifixo e bateu forte com o calcanhar da mão em sua testa dizendo:
"Hora de acordar!!'
Ele sem enteder nada, com os olhos arregalados, mumurrando, pois estava com terra na boca.
sentiu-se como numa queda livre, rápida e intensa, até cair na sua cama!!!
O impacto foi enorme!!
O lastro da cama quebrou e o cochão foi direto ao chão, que rachou em volta.
Deitado, Fafito sentou-se rapidamente e deu um cuspão de lama para cima que grudou no teto!!
Com o barulho e a fumaça que subiu, sua mãe entrou no quarto ascendendo a luz
"O que aconteceu meu filho?!!!"
A cena do quarto destruido, com pueira no ar, a cama quebrada e os lençois para todo lado,
permaneceu enquanto ele, perplexo, pensava em alguma coisa
"É... eu... tive um pesadelo... hehe!"
Sua mãe fez cara de quem não entendeu, olhando aquele sorriso amarelo. Balançou a cabeça e fechou a porta.
Ele respirou fundo.
"Ai meu Deus... Será que... foi só um sonho?"
E deitou denovo, olhando para o teto.
Lá em cima, a lama se dependurava, como uma gota...
E caiu sobre sua testa
(Pleck!)
"Droga... não foi um sonho."

CONTINUA...

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