O velho padre estava a esculpir na madeira quando Fafito entrou na sala:
"Oh, Fá! Não o tinha visto chegar." Exclamou enquanto cobria sua obra rapidamente com um lençol.
"Hm.. o que é isso aí?"
"Ah, ainda estou trabalhando. Não quero que veja antes que termine." Respondeu limpando as mãos, continuou: "Mas, aconteceu alguma coisa? Você parece meio abatido."
Fafito caminha pela sala. Toca um crucifixo na parede. Olha para o padre e fala:
"Há quanto tempo esta aqui padre?"
"Eu não entendi?"
"Há quanto tempo está vagando pela terra? Por que o senhor não pode descansar em paz?"
Abaruna balança a cabeça em sinal de positivo.
"É uma boa pergunta Fafito. E na verdade eu não tenho a resposta, talvez..."
"Talvez há mais de quatrocentos anos... Talvez não possa descansar por que não foi capaz de derrotar M´boi. E é por isso que me despertou. Por que sou sua única esperança, não?"
"O que está querendo dizer? Acha que sou Belchior?" (risos)
"Não sei quem ou oque você é, velho, mas eu não vou lutar pra você na sua guerrinha particular com o obscuro. Eu estou fora, entendeu? FORA!"
O padre lhe observa, assustado. Então reflete e pergunta:
"Há poucos dias você parecia contente em se tornar um herói. Por que mudou de idéia?"
"Você não disse que essa merda toda podia sair do mundo dos sonhos e aparecer para mim no mundo real." mumurrou ele, cabisbaixo e de olhos fechados, enquanto o padre permanecia com o olhar de dúvida, ele então levantou a cabeça, com os olhos mareados e disse rangendo os dentes: "M´BOI possuiu minha ex e me atacou no metrô!!!"
O silêncio prevaleceu naquela sala por alguns instantes.
"Isso não é possível Fah, você deve ter sonhado isso." (risos)
"NÃO, EU NÃO SONHEI!!" disse Fafito irritado, levantando a barra da calça e mostrando o hematoma que sofreu quando caiu no metrô.
Abaruna estava surpreso. Realmente não podia imaginar que os selos estavam tão enfraquecidos que M´boi podia agir, não ainda em Embu das Artes, mas já muito próximo dele.
"E eu não sei por que mas, aqui nesse mundo, ossos meus se quebram mas voltam ao normal em minutos. Agora minha perna não para de doer, e isso já tem horas." Falava Fah, com lágrimas nos olhos. Mas qualquer um deles podia perceber que suas lágrimas não eram por causa da dor física. Patrícia tinha sido um grande amor na vida de Fah e ele não pode esquece-la mesmo anos após ela o deixar. Vê-la naquele estado, lutar contra ela, foi mais do que ele podia suportar. Por isso, em ao prantos, ele sussurou:
"Eu não quero lutar mais. Eu não quero salvar o Embu, o mundo, que seja!! Não vou mais enfrentar essas coisas malignas! Eu quero elas longe de mim, dos meus amigos e das pessoas que eu amo!!"
Abaruna se aproximou de Fah, pôs a mão em seu ombro e disse:
"Eu sinto muito garoto. Eu sinto de verdade. Não queria que você, tão jovem, tão imaturo, tivesse que lutar. Você mal sabe o seu papel na vida real. Não pode entender sua importância no destino do mundo."
"Não, eu não posso. E eu vou embora. Nem que eu tenha que ficar sem dormir, eu não volto para este mundo, velho." respondeu Fafito, tirando a mão de seu ombro e se retirando da sala. Antes de sair, olhou pra trás e falou: "Você vai lutar sua guerra sozinho."
Ao ver o garoto sair, Abaruna gritou-lhe:
"Você age como uma criança medrosa Fafito!! Você não entende?!! Esta guera não é minha, ela é de todos nós!! Você foi escolhido para combater este mal! Ele vai te perseguir até que esteja morto!!"
Fafito para de andar, assustado, com medo de que aquelas palavras fossem reais. Mas ele não queria demonstrar insegurança. Ele virou-se e olho para o padre que já estava na porta, ofegante após todos aqueles gritos.
"Você não tem escolha garoto... Você precisa lutar."
"Talvez o senhor esteja certo, e eu realmente precise lutar....
...mas não ao lado de alguém que mente para mim."
"Eu não mentira alguma pra você, eu só omiti algumas coisas por que você não estava preparado para ouvi-las... VOLTE AQUI" Esbravejava o velho enquanto Fah seguia seu caminho, sem mais olhar para trás.
Ao longe ele ainda podia ouvir o grito:
"Você não vai conseguir nada sem mim!!!"
Ele sorriu, tirou do bolso um pequeno frasco onde havia guardado um pouco de água e a ingeriu. Abriu os olhos e estava em seu quarto. Sentou na cama, esfregou os olhos e procurou seu celular para ver as horas:
"São três da manhã..."
Ele se espreguiçava quando ouviu o correr de um cavalo na sua rua.
Estranhando todo aquele barulho, levantou-se a janela. Afastou a cortina e olhou pelo vidro.
O cavalo subia a ladeira com um boneco de madeira montado sobre ele.
DERRENTE!!
Ele ouviu um grito de horror e desespero horrível!!
E uma onda de vento se espalhou em todas as direções!!
Fafito virou o rosto, a onda quebrou todos os vidros das janelas ao redor, e valhos estrilhaços vieram em sua direção.
As luzes dos apartamentos começaram a ascender, com todos os moradores acordando, sem saber o que tinha acontecido.
A mãe de Fafito tinha o sono muito leve, mas a janela de seu quarto estava fechada e ela não percebeu o barulho. Se tivesse levantado teria visto que Fah saiu com a moto.
Lane acordou com o celular tocando.
"Aaaalô?..." Disse ela com muito sono.
"Laninha, se veste e me encontra aqui no seu portão..." sussurrou.
"Queeeem é? Faaah? São três da manhã..."
"Vem logo, é importante, o Chu ta aqui comigo..."
Mesmo sem saber por que estava fazendo aquilo, ela se vestiu e encontrou os garotos ali próximo.
"Espero que tenha morrido alguém!!"
"Eu também, por que esse louco foi me buscar lá na minha casa, essa hora da manhã e até agora não disse do que se trata, disse que só falaria quando encontrassemos você."
"Calma gente eu vou explicar... " Suspirou ele e falou: "Alguma coisa acabou de passar pela avenida, e não era humano. Estou com um mal presentimento."
Chu e Zi permaneceram com cara de paisagem, tipo deserto.
"Vamo Zi, eu seguro e você mata!"
"Com todo prazer!!"
"Calma ae, eu estou falando sério!! Vai Laninha, sobe na moto, vamos investigar."
Zi o observa com desdenho.
"Eu to indo dormir..."
"Zi eu posso ficar aqui, to muito longe de casa."
"Não, a casinha do cachorro tá ocupada."
"Eu fico no tapete."
"EI, AONDE VOCÊS VÃO!!"
"Boa noite Fah!!"
"É , boa noite, e vê se para de beber..."
"GALERA, depois de tudo que vocês viram naquele outro mundo, como podem duvidar de alguma coisa?"
Chu e Zi param de andar e discutem com ele.
"Fafito querido, aquilo é só sonho!"
"A Zi tah certa Fah, é tudo muito louco, mas não existe no mundo real"
"M´boi apareceu para mim no mundo real."
Os amigos de Fa ficam surpresos. Chu arrega-la os olhos enquanto Zi os comprime.
"Que papo é esse Fá?" Questionou Zi.
"Ela possuiu minha ex-namorada e me atacou hoje a noite no metrô. Eu também pensei que não fosse real, mas só não me matou por que estava com uma amiga minha muito especial. Que recitou uma oração em latim, e conseguimos destrair o demônio e fugir."
"Tá falando sério, cara?" perguntou Chu.
"Qual é gente, por que eu mentiria." disse ele com ar de tristeza.
"Agora por favor, vamos atrás daquela coisa. Eu nao quero que machuque mais alguém."
Os três sobem na moto e seguem pela Avenida Rotary, indo para o centro do Embu.
Na estrada, Fá avista o cavalo.
"O que você está vendo Chu!!! Eu não consigou olhar, tenho que prestar atenção na estrada, está muito escuro aqui!!!" gritou-lhe por causa do vento e do barulho do motor.
"Eu não sei!! Parece que tem alguma coisa em cima do cavalo!!"
"Eu vou tentar me aproximar!!"
Fafito acelera a moto e eles chegam bem próximos do cavalo, que continuava a correr em alta velocidade.
"Que porcaria de moto é essa Fá!! Você tá perdendo pra um cavalo!!"
"Eu não sei, tem alguma coisa diminuindo a velocidade!! O que consegue ver agora!!"
"Nosssa!! Parece um monstro, só que... de madeira!!" respondeu Zi.
"E muito mal feito, por sinal!!" replicou Chu.
Inesperadamente, ouvi-se uma gargalhada medonha, Fá asustado balançou a moto e quase os derrubou!!
"Caramba Fá, bração!! Pilota isso ae direito!!"
"Desculpe, mas de que tipo de monstro estão falando?"
"Eu não sei... mas parece um demônio!!"
"O que disse?!!!"
Fá permanece chocado!! Como se não mais estivesse ali!!
"A lenda do demônio de madeira sobre o cavalo" pensou
CONTINUA....

Nenhum comentário:
Postar um comentário